terça-feira, 28 de outubro de 2014

inesgotável

Foi-se o tempo em que a menina, de olhos bem abertos e sedenta, corria atrás dos sonhos. Perseguia com raça os desejos. Desejava com alma o futuro. 
Mas sempre há um dia escuro. Sempre há um tropeço, uma pedra no caminho, um imprevisto. E a menina pára. E parada fica. E o medo chega, se acomoda, faz ninho. 
E o tempo não se importa com a menina: atropela o dia, dá voltas no relógio, deixa cair toda a areia. A menina sente frio. Abraça os joelhos. Cobre os peitos com os cabelos.
A noite não acaba. Dentro dela é noite. Uma noite infindável. O medo que paralisa e gela; a menina que sedenta espera; o espaço que não se desfaz. 

Mas de repente a menina lembra. E da lembrança se alimenta, da lembrança se esquenta e sem perceber se refaz. A menina move as mãos, solta os cabelos ao vento, morde os lábios e sorri. E desse sorriso nasce um sonho. Um sonho lembrado. Um sonho dourado. Dos dias que já se passaram. E a menina resolve buscá-lo. 

Nova saga inicia. Com fé no peito e brilho no olhar. A menina se embriaga de lua, empunha a verdade, e evoca a coragem. 
Segue o destino e acredita: ainda há amor. O mesmo amor. O velho amor. 
O inesgotável amor.

invasão de privacidade.

entrada proibida.
fechada para balanço.
sua boca não me alcança
suas mãos já não me laçam

a cada tropeço, uma vontade
a cada berro, um silêncio

que a felicidade não te impeça
de enxergar aos que apenas choram



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

eu sou o meu maior medo.
o meu maior sapo.
o meu inimigo.

eu sou a força que não acredito ter.
a resposta que busco fora.
a minha verdade.

vozes

"E se eu fosse 
o primeiro a voltar
pra mudar o que eu fiz,
quem então agora eu seria?"


um passado sem erros, sem percalços, sem dores
sem pés na bunda, sem palavras que não deveriam ser ditas, sem saudades
um passado sem dias cinzas, sem perdas, sem lágrimas ao travesseiro

mas uma vida assim, sem nada disso, é sem passado
mas uma vida assim, sem nada disso, é vida sem mim.
Pendurei a felicidade no cabide. Coloquei no armário e fechei a porta.
Espero voltar a abrir, e usar, antes que as traças ou o cheiro de guardado tomem conta.

o que me desaponta, na verdade, não é o outro. é o não cumprimento de uma expectativa, criada por mim mesma. quem me desaponta sou eu.

sábado, 18 de outubro de 2014

dolor

ao se preocupar demais em não ferir os outros,
fez um rombo dentro de si

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Força:

Para viver de amor
para matar a saudade
para suportar a dor
para vencer a maldade.

Para não se conformar
para curar a ferida
para conseguir mudar
para buscar a saída.

Para levantar-me bem cedo
para tentar me reerguer
para enfrentar o meu medo
para nascer, e para morrer.
Um poeminha curto como o agora.

TEMPO

E quando achei que era tarde
lembrei que eternidade
começa num suspiro
sem hora para acabar.

não agir com impulso
para mim
é cortar-me o pulso

domingo, 12 de outubro de 2014

'realizante'

Aquela experiência única de voltar no tempo e reviver o que houve de melhor no passado.
E voltar de lá com a sensação de que há de haver felicidade no futuro, pura e simplesmente por ela ter sido sentida, alguma vez, em tempos idos.

Aquela sensação de poder fazer de novo, de sentir de novo, de viajar no tempo e de criar sentimentos, movimentos e até palavras.

Isso é realizante.

história de amor em catacrese

engoliu um sapo
deu um nó na garganta
deixou de sentir borboletas no estômago

deu murro em ponta de faca
ficou com as mãos atadas
levou um chute na bunda

sacudiu a poeira
deu a volta por cima
mas voltou ao fundo do poço

chorou as pitangas
comeu o pão que o diabo amassou
e acabou batendo as botas


contraponto

impulso.




lagarto
vontade
resignificar
contrato
remendo

exausta
penumbra

sábado, 11 de outubro de 2014

quando acaba o nós
e eu passo a ser eu,
só me restam nós.
E se a chance tiver passado?

Eu estou fraca.
Eu estou osso e carne.
Ossos duros e frios. E estáticos.
Carne viva, vermelha, sangrando em dor.

Eu quero ar.
Quero comê-lo.
Sorvê-lo.
E passar a viver.

eu quero viver.


Acordar a cor seria mais fácil.
Mas acordar de mim,
e acordar em mim,
o que é ausência,
sombra e dor,
é despertar a noite.
É despertar à noite.
Se eu dormir em luz,
quero acordar em luz.
Mas se a noite é o que toca -
agora -
quero, serenamente, dormir.
É a morte em mim.
No final do dia,
ou no meio da vida,
respiro.




(na aula de desenho em carvão: luz e sombra)

domingo, 5 de outubro de 2014

"amores surdos"

- o amor é visceral
embora, por vezes, silencioso -

está no ato de deixar ir,
no respirar fundo e alto,
e respirar junto quando falta ar.

está no dar um empurrão
naquele que não sabe ir
e carregar no colo
o que se sente pequeno.

o silêncio está no dormir -
mesmo quando os sonhos
e a realidade se misturam
e saem andando pela sala.

o amor está no dar notícias.

está no preocupar-se,
no cuidar,
no entender,
está no ouvir.
o amor está no ouvir,

o amor está em todos os lados:
na barriga do bicho que mata o pai por amor à fome,
no aceitar as escolhas dos outros
e cuidar delas como se fossem suas.
está no olhar ao redor e entender
que às vezes precisamos vestir os sapatos também.
e dançar.



(sobre a peça "Amores Surdos", do grupo Espanca)

murro em ponta de faca

Amar é
insistir
em não acreditar
no que os olhos não querem ver.
O amor não é cego.
É doido.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Como será possível?

Como será possível, que em meio a muita dor, uma dor que não se expressa por palavras, porque a boca amarga o gosto da espada de Micael que me atravessa, um passarinho vem e me faz lembrar de quem eu realmente sou? Que me atenta ao fato de que eu vou sobreviver a essa fase, como sobrevivi a outras, e que me transformarei pelo simples fato de que há pessoas lindas ao meu redor. 

E agora, com coragem e destino, empunharei a espada que atravessou a alma, e buscarei a alegria que sim, apesar de não vê-la agora mesmo, existe em mim. 







Eu te dedico a minha luta, Ana querida.
http://anarouxinol.blogspot.com.br/2014/09/a-amiga-andorinha.html