terça-feira, 29 de março de 2011

No dia em que a poesia me deixou, nem chuva eu sei se caía do céu. O peso da terra me era tal, que meu pescoço sentia a gravidade e eu carregava a sensação de que meus olhos fitariam o solo eternamente. O eterno de quem sofre é sempre o mais longo. E no dia em que poesia afastou suas rimas de mim, levando consigo a fé dos que sonham e os versos dos românticos, senti-me sem equilíbrio e sem forma. As horas e os minutos do relógio, antes tema para poemas de quem espera o amor, se tornavam chicotes e algemas. Os objetos pareciam mudar de lugar. O abandono cheirava a novo, mas o gosto era amargo como fruta que passou do tempo. E eu, sem poesia e com a ternura longe de mim, sentei-me à espera da morte. Ela não veio, assim como a poesia. E no desespero da solidão, viúva da poesia e não correspondida pela morte, deixei o sofrimento guiar meus passos. Ele me levou a lugares que nunca havia visitado. E em sua companhia descobri coisas que me surpreenderam: as sombras, os morcegos, as cavernas, o esgoto, a rua sem saída, os porões, o escuro, a grama alta demais, as folhas secas no chão. Eu entendi, assim, que nisso tudo também havia vida. Percebi a beleza no que era estranho, no era só, no que ficava calado. E compreendi, enfim, que a poesia não precisaria voltar para mim se eu me dispusesse a buscar ao redor a beleza que eu parecia não mais enxergar. E que poderia até acontecer, talvez, de alguém que sofre muito, ou alguém que caminha por aí olhando ao redor, encontrar, em mim, uma poesia para o seu dia.

terça-feira, 15 de março de 2011

prá começá

Ele me disse:
Me escreve?
Mas não disse
Me escreve, amor!
Será que ele achou
Que eu não deixaria?
Que não responderia?
Ou acharia ousadia?
Então pra responder eu digo:
Escrevo sim, meu bem!
Mas fico de cá na dúvida
Se ele vai me entender
Se ele vai querer
E se vai vir aqui me ver
Que é pra gente enfim começar...

sábado, 12 de março de 2011

"recuerdos de la Alhambra"

No dia em fui árabe
me banhei em leite e rosas
nos jardins da Alhambra

Recebi do rei flores e fontes
e todo o respeito do mundo

Fiz amor com os cabelos soltos
pintei os olhos para atraí-lo
- novamente -
a mim

E ele veio
como sultão de uma única senhora e dona

E eu fui
como senhora e amante
de um único homem

E novamente nos unimos em amor.


Granada - janeiro de 2011