quinta-feira, 16 de julho de 2009

relato sobre gente do bem - 1

Ela faz falta quando não está. Mas nem tô dizendo isso porque é ela quem coloca (ou tenta colocar) a casa em ordem. Ela faz falta porque sempre tá quietinha no canto dela pronta para bater um papinho comigo. Por anos a fio eu dizia em tom de brincadeira pra ela: - É, Rosa! Rapadura é doce mas num é mole não. E ela sempre fazia um "hum" de volta, com meio sorriso e uma cumplicidade que poucas pessoas oferecem.
Rosa trabalha na casa dos meus pais desde que eu tinha 3 anos, mais ou menos. Mas na verdade uma das coisas que ela faz melhor é contar casos. Eu sei o nome dos vizinhos dela, do cunhado chileno danado, da cachorrinha. Ah! Cachorrinha! Ela cuida da cachorrinha aqui melhor que qualquer um de nós. Não melhor do que ela cuida de mim, mas de forma igualzinha. Rosa mora perto, vem e volta andando. E no caminho sempre para pra conversar com alguém, que eu sei!
Ela me conta casos de quando eu era pequena que eu não sabia. E me faz rir com seu jeito todo caretinha de ser. - no ótimo sentido, gente! Nada contra caretinhas!
Ela estudou até a quarta série. Sabe ler e escrever bem. E estuda geografia por conta própria antes do almoço. Lê os meus velhos livros da escola. Adora fazer lista de nomes de países. E finge que é séria que é para o jardineiro não se meter a besta com ela.
Ela não se casou. Mas já namorou um homem por muitos anos. E já perdeu um bebê. O bebê teria a minha idade hoje. E é por isso que acho que às vezes Rosa me trata como filha.

Eu já vi Rosa chorar só uma vez. Que foi quando a gente perdeu a Paty. Porque no resto dos anos todos ela sempre é muito durona, e fala de qualquer assunto sem choramingar. Ela cuida do pai dela agora, que tá doentinho, mas nunca deixa a peteca cair.
Ela aprendeu a cozinhar com minha mãe, quando começou a trabalhar pra ela, e, numa boa, nem dá mais pra diferenciar quem faz o almoço. A comida de Rosa tem o gostinho da comida de mãe. (Eita coisa boa!)
Hoje ela está de férias, e vir aqui e não vê-la por perto é realmente estranho.
Mas ... eu sei o que ela está fazendo agora: escutando Elvis no talo!

1 poesias:

Marcela disse...

Santa Rosa!