quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

amargura / amar cura

o meu passado cai em uma lágrima só, de canto de olho
eu não te digo em palavras o universo inteiro que sou
nem te comunico as minhas dores, os meus medos ou o mistério que carrego
mas você sabe.
você sabe sem que eu te expresse.
porque você lê além do sorriso e do olhar.
você lê além das mãos que te param.
enxerga mais, porque se interessa
e eu me sinto bem no seu colo, no seu abrigo, no amor que cura.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

estranho estranho amor

Eu quero sugar todo o seu desejo
Quero me saciar do seu gozo
Quero jogar-me no seu colo
e desfalecer de prazer

Mas eu me importo com quem você se deita 
te arranho em pensamento com a raiva que me dá
te grito palavras de ofensa e desaforo
sem nem você aqui para escutar

Eu me importo com os meus defeitos
e tento mascará-los para você não os expor
e me aflige a saudade que me ataca
e por eu não mais conseguir me controlar

Mas não te peço que aceite

este estranho estranho amor
Porque eu não sei se o quero
Não sei se tolero
este tipo de gostar

Meu corpo combina com suas mãos
seu jeito e sua língua em mim
Mas quero sair correndo 
por medo de me render



(releitura de "Nosso estranho amor", do Caetano Veloso)

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Deixei de buscar a explicação que não vem.
Deixei de esperar por uma compreensão racional e passei a aceitar a saudade.
Não uma aceitação acomodada, paralisada por uma dor, mas uma aceitação espiritual de que a morte é parte da vida: não seu fim.
Uma aceitação de que matéria é parte da vida, e não a vida em si.
Uma aceitação de que posso ter dúvidas, de que posso questionar, de que posso amanhecer em raiva – dia ou outro – por não querer aceitar. Mas que também posso voltar ao centro de mim e agradecer pelo tempo em que foi presença, em que foi amiga, em que foi a irmã.
Há sete anos que trabalho em mim essa perda. E há sete anos percebo que memórias e intuições me ajudam a percorrer o caminho. Eu não estive sozinha. Eu nunca perdi você. Eu nunca deixei de te ter bem próxima, bem dentro de mim.

Sou 1/3 a menos do que um dia fui, mas experimento, no correr da vida, a certeza de estar crescendo em saudade, gratidão e fé. 

domingo, 25 de outubro de 2015

A bananeira

Há meses acompanhamos seu crescimento. As folhas que secavam e caiam - e como se enroscavam quando secas no chão. O primeiro cacho, o umbigo, as bananas verdes bem pequenas e as bananeiras pequetitas que começaram surgir ao redor, cada uma em seu tempo, enquanto a bananeira-mãe ia crescendo, ganhando poder, deixando suas bananas verdes crescerem ainda mais.
A expectativa pela cor amarela. 
Incrível a perfeição, delicadeza e 'instinto' de proteção e sobrevivência da natureza. Tudo perfeitamente calculado. Feito para durar.
Mas então, de um dia para o outro, de fora, vem alguém e decide fazer com que o cenário fique mais bonito, podando as bananeiras pequenas e tirando as folhas secas que ainda estavam no pé. 
Surpresa: era do jeito que tinha que ser.
Ao arrancar o que parecia "imperfeito", a bananeira perdeu o que a permitia equilibrar-se lá em cima. Perdeu a arquitetura de sustentação. E, antes mesmo que pudéssemos ver as frutas amadurecerem, caiu no chão. 


Precisamos entender, respeitar e aguardar o tempo de ser das coisas. 
As imperfeições, às vezes, são os que nos ajudam a crescer e amadurecer. 
Ter um passado é o que nos permite um futuro mais amarelo. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

"eu sou mais forte do que eu"

eu sinto as dores do mundo também
e elas me cegam
as sombram me assustam
eu sempre quis mais do mundo
eu esperava outra coisa
mas eu não vou esmorecer
não vou deixar dissolver em mim a vontade de salvar a poesia do mundo
eu sempre acreditei no melhor das pessoas
uma das minhas qualidades, talvez
uma das minhas fraquezas, conhecida como "criação de expectativas"
mas o problema não está nas pessoas
e não está em mim, só
está no tempo que desencontra
mas buscar a culpa é viajar de frente para trás
e eu quero caminhar adiante
eu quero o próximo capítulo
aquele em que há o aprendizado 
aquele em que a dor se transformou em sabedoria para fazer diferente
eu quero fazer diferente
sorrir por dentro
entender o passado não por análise, mas por perdão
e saber que eu sou mais forte do que eu.
"eu sou mais forte do que eu"
Obrigada.


terça-feira, 11 de agosto de 2015

O circo veio e alegrou a cidade. Trouxe essa alegria que as pessoas nem acreditavam mais serem capazes de sentir.
Mas chegou o dia de ir embora. A trupe juntou as malas e partiu.
E deixou na cidade a lembraça do quanto é bom sentir tal alegria e a esperança de que um dia ele volte.
Há amores que são como ipês: lindos e efêmeros.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

tempo devagar

Darei um tempo de mim
para respeitar o tempo seu
Ir devagarinho, assim,
como quem não sabe aonde quer chegar

O que me impulsiona é a vontade
Mas treino o desapego
o equilíbrio
e a pausa dos impulsos

Eu te dou o tempo que quer
enquanto souber esperar
enquanto puder esperar
enquanto não enlouquecer

Da vontade que carrego
Dispenso a dor que vem
Mas sacudo a desesperança
Para voltar a acreditar em nós

quinta-feira, 16 de julho de 2015

circo

eu quero ir embora com o circo.
quero a incerteza da estrada
do movimento
de não saber o que esperar do amanhã;
quero o frio na barriga de subir ao palco
diante de nova plateia
a cada dia
a cada noite
quero o sorriso da bailarina
quero os olhos vidrados das crianças
quero os segredos tristes do palhaço 
quero o medo do globo da morte

eu quero ir embora com o circo.
quero me casar com a alegria
e levar às menores cidades 
a leveza do malabarista.
quero não saber sobre o futuro
quero pisar no presente e sentir:
quero sentir o circo.


Beatriz

eu não sou mais atriz
a minha vida anda por um triz
como se eu tivesse escrito tudo em giz,
e alguém viesse apagar
alguém com medo de me amar
como se por ser assim, em mim não pudesse confiar

mas eu não sou mais atriz
já não me chamo beatriz
já não importa o que eu fiz
agora estou disposta a acertar
de agora em diante eu não vou mais errar
eu quero, eu preciso ... recomeçar


(escutando Chico)


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Dennis

Ninguém nasce palhaço
ou num passo de mágica
Ninguém vem pronto
ou sem algo por melhorar

Mas tem gente que nasce luz
e vem alegrar a terra
Tem gente que é sorriso
e carrega uma importante missão

Um menino grande
com alma de artista
um valente homem
com garra e dedicação

segunda-feira, 8 de junho de 2015

"feito pra acabar"

A gente é feito de pó,
é feito de água
barro feito um só.
A gente é feito de vento
feito no tempo,
o desatar de um nó.

A gente é feito para acabar
a validade vence:
da gente,
da vida,
do amor.

A gente é feito para sonhar
num dia acordado,
na noite mal dormida,
na dor.

A gente é feito para se ver
no 'rosto do impossível',
no gosto do desgosto,
nas ruínas do sonho que acabou.


(escutando Feito pra acabar, do Marcelo Jeneci)

segunda-feira, 1 de junho de 2015

"esqueça a chave do seu coração do lado de fora.
qualquer hora alguem vai te falar que você se trancou lá dentro e vai abrir"

Que sorte eu tenho de ouvir isso .
Que sorte eu terei, quando esse dia chegar.

baú de lembrar

ao mexer nas recordações do que viveu
viu tinta sem cor brotar dos olhos
e cair nas cartas
e molhar as fotografias
e esvaziar a alma

ao abrir o baú de lembrar
viu que nunca se esqueceu
de que depositou na história amor
e alimentou o jardim do sonhar
achando que um dia ia colher
as flores que o futuro traz

ao reviver o passado
ela viu que no fundo do peito ainda há dor
pelas certezas que se desfizeram
e pelo amor que era para ser -
que era para ser para sempre

domingo, 31 de maio de 2015

Foi você quem me disse que queria amar de novo.
Eu não.
Eu não disse.
Eu não queria.

Mas foi você quem sentiu medo e recuou.
Eu não.
Eu fui em frente.
Eu me permiti amar.

terça-feira, 26 de maio de 2015

"Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante."
Clarice Lispector


De repente, dos olhos mareados nasceu um sorriso. Aquela solidão era, na verdade, um portal para a liberdade. 


sobre um adeus

Os meus segredos te assustaram.
Não há mais nada para conversarmos.
Compartilhar verdades é, para mim, a melhor forma de fazer amor.

Se ao me ver por inteiro você sentiu medo,
temo não ter mais o que te oferecer.

Eu me despeço com um abraço,
te guardo ao lado das lembranças boas,
e sigo meu caminho/minha busca.

Não arrependo de ter falado.
Intuitivamente sei em quem confiar.
Nem te julgo por não acolher minha história.
Cada um escolhe a trilha em que quer pisar.

Volto a lançar-me em palavras.
Há quem não aprenda nunca?
É que viver e escrever moram de mãos dadas em mim.

E seja feliz.
E sou feliz.
Agora, e sempre que lembrar do seu sorriso, e sempre que lembrar do seu abraço, e sempre que lembrar que posso carregar a minha verdade em mim. Ainda que sozinha.

sábado, 23 de maio de 2015

a new beginning, once and again.

A gente sobrevive à dor de um desamor.
Sobrevive porque simplesmente somos feitos de vontade e fé.
Se a gente quer, se a gente toma a decisão, se a gente acredita e coloca objetivo, não há dor que se instale para ficar.
A dor é insistente, eu sei. 
Ela cava buraco no peito da gente. Mas somos pedreiros do nosso destino, construímos nosso caminho, e podemos preencher o vazio de paz.
Não é simples, eu bem sei.
Não basta ler este texto, ou aquele, ou passar um batom vermelho.
Mas isso tudo já é um começo.
É isso: uma questão de começar. Colocar as mãos na massa. Arregaçar as mangas. Olhar para frente.
Porque o passado a gente trabalha na terapia, nas meditações, nos sonhos. Mas o futuro a gente precisa criar. 
Eu não sei bem como, ainda estou no meio do processo: no agora. E tudo o que consigo dizer é que a gente sobrevive à dor de um desamor. E se reconstrói. 



quarta-feira, 13 de maio de 2015

É isso! Quero ficar rodeada de livros de poesia, um chazinho quente na caneca saindo fumaça e um cheirinho de canela. Quero viajar entre palavras, rimas e estrofes, bordar meus próprios poemas, enquanto ouço o filhote brincar.
Quero me saber segura embora só. Quero me sentir forte ainda que frágil. Quero me saber independente porém com a certeza de que tenho com quem contar.
E quero, no fundo no fundo, poder sonhar com um amor em que eu ainda nem me atrevo a acreditar. Quero imaginar seu rosto, seu gosto, suas manias. Quero compartilhar sonhos, realizar desejos e quero dele cuidar. Quero a proteção de ser amada. Quero a delícia de acordar abraçada. Quero a delícia de passar a noite sem dormir. 
E de manhã, voltar para meus livros de poesias e ver o amor sair, sabendo que ele vai voltar.
Eu quero um amor que fique.


arrumação.

Eu tenho tanta coisa para jogar fora. Não falo das coisas materiais, porque com essas eu já procuro há tempos exercitar o desapego. Falo de sentimentos, de memórias que guardo e que já era hora de deixar que saiam. 
Eu falo de algumas dores, uma auto-piedade que não cabe, uma culpa que me persegue sem que eu consiga - conscientemente - descobrir a origem, uma mágoa, e um rombo no peito causado por eu não cuidar direito das perdas que vivi.
Eu preciso jogar fora o que não é meu. E tudo isso acima, me vive, me penetra, mas não sou eu. 
Eu sou aquela que quer viver. Eu sou aquela que sorri, apesar dos pesares, apesar das perdas, apesar das dores.
Eu sou forte, embora até o meu corpo, agora, tente me dizer que não.
Eu sou bicho, que sente, que por instinto se alimenta, e que por ter alma sofre. 
E sou tão gente! Que busca aprender com cada ato falho, com cada pisada em falso, com cada queda.
Eu tenho tanta coisa para jogar fora!
Mas enquanto eu não tiver entendido o porquê de tudo isso, sei que nada poderei fazer.



ah! Sábia natureza...

A sábia natureza, até quando não percebemos, dá um jeito na correria e nos diz: chega!
Ela dá um basta e nos impõe que paremos, que repensemos ou que, outras vezes, paremos de pensar.
A sábia natureza tem seu tempo, e respeita o nosso, desde que estejamos caminhando de acordo. Mas como muitas vezes queremos dar passos maiores que nossas pernas, ela nos impede um próximo passo que, inevitavelmente, levaria a uma próxima queda.
Embora nem sempre consigamos compreender, o que ela está fazendo é nos cuidar.


terça-feira, 5 de maio de 2015

Vive em mim um pouco de Clarice. Eu escuto o silêncio entre uma respiração e outra, entre um arrebato e outro deste coração. Vive em mim um pouco do tempo. Que corre, decola, se embola todo. Eu nunca temi o tempo, porque gosto do agora. Eu vivo a dor e a alegria do exato agora. Por isso escorre de mim tanta lágrima ou tanto suor. Eu sou feita deste chão que piso. Deste chão que pisas. A gente planta, a gente amassa, a gente colhe, a gente joga fora. Eu não saberia viver sem colocar em palavras (ditas, escritas ou bailadas) o que pulsa dentro de mim. Mais que no peito, me pulsa no estômago. Eu sinto correr nas veias essa dor de que não sou capaz de me desfazer. Eu sinto nas pernas a vontade de dançar a alegria que me arrebata também. Porque vou lá e cá. Estou num polo ou outro. Nunca fui de estar no meio. Sou extremidades.

domingo, 3 de maio de 2015

Eu quero ser escritora um dia.
E tirar da mente, um pouco, e colocar no papel. Deixar-me esvaziar e depois voltar a me encher, de coragem então.
Eu quero não sentir tanto, não me doar tanto, não sonhar tão alto.
Mas eu nasci sorrindo, e vou morrer assim.
Um sorriso de vontade. Porque eu quero tudo ao máximo. E quero tudo agora.
Eu nunca soube esperar. Nunca pisei no freio, porque sempre soube aonde queria ir. E fui.
Eu chego no ápice, sempre. Eu sou feita de desejo.
A minha entrega é consciente, embora a tal razão sempre me alerta sobre ir devagar.
Eu sinto que preciso parar. Seria o certo. Mas eu não consigo viver de Se...
E se eu tivesse feito, e se eu tivesse dito...
ao mínimo pensamento assim, eu já fiz, eu já disse.
E então eu escrevo.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

calma
alma
corpo 
pára
eu não sei.
eu não sei.
a vida não pára.
o coração dispara.
a gente não repara.
o tempo corre
a valsa acaba
a gente dança
ou a gente não vê o mundo girar
a vida é tão rara
tão cara
tão clara
alma
calma
eu não sei...


(Ouvindo Paciência, Lenine)

espinha de peixe

Tem coisa que é como uma espinha de peixe entalada na garganta:
Dói. Arranha. Fere.
Você tenta falar, gritar, reclamar,
e dói cada vez mais.
Você tenta arrancar com a mão, puxando para fora.
Dói ainda mais.
E pode ser que consiga, sozinho, tirar a espinha de peixe.
Mas a garganta vai estar ferida.
Sangrará.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

da sombra, trazer a luz
e deixar nascer o bicho que me mora
no medo, vestir-me de coragem
e encarar o desafio de traçar seus olhos
e de repente, como num passe de mágica,
vê-los brilhar

a arte não tem segredo,
tem magia.

hoje acredito na minha força.
sou gato.


terça-feira, 31 de março de 2015

de dentro para fora. de fora para dentro.

O mundo me preenche de tal forma que chego a me emocionar
é de uma delicadeza avassaladora.
eu desejo o mundo, e me lanço em sua direção
quando percebo, ele já está em mim

O mundo me atrai e eu vou
quero do mundo as cores, os sabores e os sons
então eu percebo que esse sonho me mora
e eu que eu preciso caminhar, e arregaçar as mangas,
e correr de encontro ao mundo que também me quer

O mundo lá fora é lindo
e meus olhos, meu coração e minhas mãos sabem exatamente disso
Mas o mundo que me mora também está
e é dele que lançarei o meu trabalho,
que farei a minha poesia,
que ilustrarei os meus desejos,
que educarei os meus anseios,
e devolverei ao mundo de lá.

Entre ele e eu:
a minha coragem.